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#IncipitBrasil AS PERGUNTAS Antônio Xerxenesky

Indicação de Ângela Pontual "No começo era difícil: ela acordava gritando, urros tão desesperados que despertavam os pais e o irmão, eles corriam em direção ao quarto dela imaginando uma tragédia ou no mínimo um acidente sanguinolento e a encontravam na cama, com o torso erguido, as mãos apoiadas no colchão, agarrando com força o lençol, as unhas quase rasgando o tecido, e os gritos iam diminuindo até ela entender o que tinha se passado, até compreender e localizar a linha divisória entre o mundo dos sonhos e a realidade, então ela ficava em silêncio enquanto os pais e o irmão perguntavam “o que foi, o que foi?” e ela respondia com uma voz rouca de quem arranhou as cordas vocais que “foi só um pesadelo”, mas ela sabia que a explicação era simplista, que não valia a pena repetir o que contara aos pais nas primeiras vezes que acordou gritando, isto é, que mesmo depois de acordar, continuava enxergando sombras no quarto, e seu pai, do alto do seu cientificismo, ...

#IncipitBrasil FIM DA LINHA O crime do bonde de Rafael Guimaraes

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"Eduardo Pereira da Costa perde a hora da consulta médica, e se dirá mais tarde que este pequeno contratempo teria sido a faísca que acionou os insondáveis mecanismos do acaso rumo ao desfecho inapelável. Não fosse o atraso, ele não estaria na sacada quando os fatos se passaram, portanto, não teria visto o que viu e não se sentiria compelido a fazer o que fez. Outros, contudo, irão ponderar que Eduardo, ainda que ele próprio não tivesse plena consciência da dimensão de seu drama, já estava corroído por pensamentos obscuros. Portanto, a tragédia era questão de tempo." Libretos, 2018, Porto Alegre, 268 páginas. Da 4a capa: Antes do desfecho inapelável e seus danos colaterais, o leitor é convidado a percorrer a jornada dos personagens até ali, através de episódios ambientados nos bastidores políticos da República Velha, na vida boêmia e cultura do Rio de Janeiro no início do século 20, na belle époque porto-alegrense e nas rudes disputas do interior gaúcho, nos quais uma tên...

#IncipitBrasil QUEDA DA PRÓPRIA ALTURA de Sérgio Tavares

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"de todas as analogias possíveis à vida, a de uma estrada é a que menos evoca as inspirações pré-fabricadas e a poesia antipessoa. você, eu, o bebê que se descobre humano ao dar o primeiro passo delineamos uma estrada que vai transfigurar matiz, massa e bússola ao longo da vida. há pessoas, com certas vocações passarinhas, que têm uma estrada retilínea, serena e comprida de não enxergar horizonte. outras, que costumam mendigar o desassossego, perdem-se em labirínticas breias, surdas e curtas de medir queda com a própria altura. há ainda aquelas que, quando muito (este terrível mundo!), disparam num zigue-zague contínuo, caminhando uma estrada que não é sua, sem estanque ou absolvição. estradas começam agora; outras, de tão velhas, são esquecidas, deslocadas no tempo. são ocas, eco, ocas, pedregosas de abrir os pés, escoar a chuva, abandonadas ao som da noite. e, como a vida, toda estrada tem fim. nem toda." Confraria do Vento,  2012, Rio de Janeiro, 244 páginas. Da or...

#IncipitBrasil UMA AUTOBIOGRAFIA LITERÁRIA: O TEXTO, OU: A VIDA de Moacyr Scliar

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"Escrevo há muito tempo. Costumo dizer que se ainda nao aprendi nao foi por falta de prática. Comecei cedo; minhas recordações de infância estão ligadas a isto: a ouvir e contar histórias. Não só histórias de personagens que me emocionaram, me intrigaram, me encantaram, me assustaram - o Saci- Pererê, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, Hércules, Teseu, os Argonautas, Mickey Mouse, Tarzan, os Macabeus, os piratas, Emília, João Felpudo, Huck Finn -, mas também as histórias que eu ouvia de meus pais, de parentes, dos vizinhos, e aquelas que eu próprio inventava. " LP&M, 2017, Porto Alegre. Não escondo que o Scliar é um dos meus escritores prediletos. Aqui, uma indicação da Rosânia, amiga de sempre e leitora consistente. Da 4a capa: Tomem uma família [...] em casa, à noite. Já jantaram, já viram tevê – a típica rotina das casas brasileiras nesse horário. E aí o pai ou a mãe anunciam ao caçula que está na hora de dormir. Não há criança que receba esta notícia sem protestar. Afin...

#IncipitBrasil PORNOPOPÉIA de Reinaldo Moraes

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"Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional . Não é cinema, não é epopeia, não é arte. É -- repita comigo -- vídeo institucional . Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora 'bloqueio criativo' por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor."  Objetiva, 2008, Rio de Janeiro, 475 páginas  Da orelha do livro: "Ex-cineasta marginal obrigado, pela necessidade, a filmar vídeos promocionais, Zeca tem um único longa-metragem em seu currículo." [...] "Na contramão dos (anti-)heróis tradicionais, o personagem não está atrás de redenção ou disposto ...

#IncipitBrasil A PÁTRIA EDUCADORA EM COLAPSO de Renato Janine Ribeiro

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Numa quarta-feira, 18 de março de 2015, eu estava na Casa  do Saber, em São Paulo, me preparando para começar um curso que duraria quatro semanas, quando encontrei o executivo Jorge Pinheiro Machado -- meu colega no Conselho Consultivo do Instituto Inhotim, o extraordinário museu ao ar livre a uma hora de Belo Horizonte. Ele me contou que o ministro da Educação, Cid Gomes, acabara de deixar o governo, depois de uma altercação com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. O episódio tinha sido conturbado. Em fevereiro, com apenas um mês no cargo, o ministro visitara a Universidade Federal do Pará, onde ouviu impropérios de estudantes extremistas, gente sem ideias nem valores, que só sabe xingar. Cid perguntou aos jovens por que o atacavam, já que estavam do mesmo lado, e não dos "trezentos ou quatrocentos" achacadores que havia na Câmara. E também responsabilizou Eduardo Cunha pelos "achaques" ao governo. Ora, num desses atos que só podem ser atribuídos ...

#IncipitBrasil AS LOURAS DE MINHA VIDA de Fernando Neves

Maria Alice guarda, muito bem guardado, no fundo de uma gaveta fechada à chave, no armário art déco que ganhou de  sua tia Anália, um álbum de capa de veludo vermelho com bordas ornadas com fios de ouro. Nesse álbum, Maria Alice coleciona  todas as recordações amargas de sua vida. Não há uma única mágoa, pequena tristeza ou grande infortúnio que não esteja registrado,  de alguma forma, no álbum vermelho de Maria Alice, num imenso relicário de suas piores memórias. conto Álbum de Recordações Amargas Bandeirola, São Paulo, 2018, 164 páginas. Livro de estreia de Fernando Neves.  Os contos dessa coletânea tratam de perda, do medo e das diversas formas de fuga empregadas por aqueles que temem as incertezas dos relacionamentos.